domingo, 16 de agosto de 2026

Conhecer tanto a forma como a dimensão da Terra é fundamental para operações relacionadas ao posicionamento terrestre, à navegação (seja terrestre, marítima ou aérea) e a elaboração de mapas, com detalhamentos variados. Pequenas incertezas nessa determinação podem ser responsáveis por grandes erros.

A forma e as dimensões do nosso planeta podem ser definidas com diferentes graus de exatidão. Até meados do século 17, considerava-se a Terra como uma esfera regular. Com as novas teorias físicas (newtonianas), foi possível qualificar melhor as forças gravitacionais. Por meio de medições realizadas em diferentes latitudes, foram identificadas diferenças expressivas entre os raios geométricos do planeta. Foi o xeque-mate para o paradigma da Terra esférica.

Quando se colocou em questão o valor constante do raio da Terra, chegou-se a um novo conceito: o de um elipsoide de revolução. Achatado nos polos, o elipsoide de revolução é ainda hoje a figura matemática que os geodesistas (cientistas dedicados a estudar, entre outras questões, a forma e as dimensões da Terra) consideram a que mais se adapta à forma verdadeira da Terra. Ela é representada fisicamente como um geoide, que, de forma simples, pode ser definido como uma superfície fictícia determinada pelo prolongamento do nível médio dos mares sobre os continentes.

A superfície terrestre é irregular, com deformações, e seu formato está em constante modificação, consequência das ações erosivas, dos vulcões, do movimento das placas tectônicas, dos ventos, das chuvas, das ações do homem etc. Para representar a superfície terrestre em um plano, é necessário que se adote uma superfície de referência, que corresponda a uma figura matematicamente definida. Dependendo do propósito do mapeamento, a representação da Terra pode variar entre um plano tangente à superfície terrestre (específico para representação de pequenas áreas – um terreno, por exemplo), um elipsoide de revolução (para representar áreas maiores, como um país) ou uma esfera (para o caso de áreas muito maiores, como um continente ou o próprio globo terrestre, quando, na escala de representação utilizada, os raios equatorial e polar não apresentam diferença significativa).

(Adaptado de Nem plana, nem redonda, coluna Geoinformação, CH 345)

Carla Madureira Cruz , Departamento de Geografia, Instituto de  Geociência, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Em que situações as altas temperaturas podem provocar danos à saúde das pessoas?

 A condição mais perigosa para o bem-estar térmico de uma pessoa é um ambiente muito quente e muito úmido. Isso porque a umidade dificulta a evaporação de água, que é a principal forma que o corpo humano tem para evitar o aquecimento. À medida que o corpo vai ficando sobrecarregado com calor, a hipertermia se instala e vai se agravando.
Qualquer atividade física nessas condições representa um fardo adicional para os mecanismos corporais de controle da temperatura, já que os músculos ativos podem produzir quantidades muito grandes de calor. Dentro do termo “atividade física” estão a prática de esportes – especialmente os de maior duração, como corrida, jogos de equipe, ciclismo – e atividades de trabalho, como construção civil, cozinhas e lavanderias industriais.
Fatores adicionais podem ameaçar ainda mais o controle térmico e resultar em hipertermia. Primeiro, quando o indivíduo está exposto ao sol, há um ganho adicional de calor pela radiação solar. Segundo, ambientes com pouca ou nenhuma circulação de ar também prejudicam a evaporação de suor e o resfriamento. Terceiro, roupas que dificultam ou impedem a perda de calor corporal também podem ser um agravante. Há que se considerar que, em diversos casos, a vestimenta de trabalho deve obedecer a requisitos de segurança e proteção do trabalhador, higiene do local de trabalho, entre outras, mas ao mesmo tempo pode ser inadequada do ponto de vista térmico, aumentando o risco de episódios de estresse térmico ou exaustão por calor. E finalmente, em climas quentes, espaços de grande aglomeração de pessoas podem ficar ainda mais aquecidos. Associados à baixa circulação de ar e à ingestão insuficiente de líquidos pelas pessoas, esses locais podem se tornar um estopim para episódios frequentes de estresse térmico e hipertermia (Maria Montserrat Diaz Pedrosa, Departamento de Ciências Fisiológicas, Universidade Estadual de Maringá).

Ciência Hoje (405), dezembro de 2023.

Quais os efeitos do calor extremo no corpo humano?

 O corpo humano usa diversas estratégias para manter sua temperatura em torno de 36,5 ºC. Quase sempre ela oscila menos de 1 ºC ao longo de 24 horas. Essas estratégias compõem o sistema termorregulador, que trabalha para evitar tanto o resfriamento corporal quanto o seu aquecimento, e procura manter um estado de conforto térmico.
Extremos de temperatura exigem ações potentes do sistema termorregulador. Temperaturas ambientais altas – ou atividade corporal em ambientes relativamente quentes – acionam um poderoso mecanismo de resfriamento: a evaporação de água. É uma experiência comum a sensação de suar nessas situações. O suor é uma secreção de glândulas da pele composto por água e sais (especialmente cloreto de sódio), que se evapora em contato com o ar, dissipando o calor excessivo. Na verdade, a sudorese (produção de suor) é a única forma eficiente de resfriamento em ambientes com temperatura próxima ou superior à temperatura corporal, ou capaz de eliminar o calor produzido pela atividade muscular. Para sustentar a produção de suor, os vasos sanguíneos da pele se dilatam, produzindo outra experiência comum, a de estar com a pele quente e avermelhada.
O excesso de calor e as respostas termorreguladoras para o resfriamento corporal podem causar estresse térmico: sensação de desconforto, câimbras, inchaço nos membros inferiores e desmaios. Mas esses efeitos podem ser facilmente revertidos com hidratação adequada e mudança para um local mais fresco: Os problemas se tornam progressivamente mais graves à medida que a desidratação por causa do suor e a falha no resfriamento do corpo não impedem mais o aumento da temperatura corporal (hipertermia), resultando em exaustão térmica e choque térmico por calor. Eles causam confusão mental, dor de cabeça, tontura, náusea, aceleração do coração, queda da pressão arterial e vômitos. E quando a temperatura corporal atinge 40 ºC ou mais, a pessoa pode ter convulsões, trombose, hemorragia e lesões nos rins, fígado e cérebro. Mesmo com intervenções rápidas e adequadas para o resfriamento, como bolsas de água fria, essas lesões podem levar a problemas mais sérios e, mesmo, causar a morte, até vários dias depois do episódio de hipertermia (Maria Montserrat Diaz Pedrosa, Departamento de Ciências Fisiológicas, Universidade Estadual de Maringá).

Ciência Hoje (405), dezembro de 2023.